Responsáveis: Luciana Romagnolli e Priscila de Sá Santos
APRESENTAÇÃO
Esta é uma proposta para a edição 2026 do Ateliê de Psicanálise, Artes e Corpo, em continuidade ao trabalho realizado no ICPOL de setembro a dezembro de 2025. A primeira proposição foi reduzida de acordo com o tempo disponível para os encontros naquele período breve. Neste ano, voltamos ao tema de forma mais estendida, relançando as questões: “O que as formulações de Lacan sobre o imaginário e o corpo nos ensinam sobre o corpo falante? De quais modos nos permitem aproximações às artes contemporâneas que privilegiam o corpo desde os anos 1970? E o que essas expressões artísticas podem ensinar aos psicanalistas sobre os arranjos entre corpos e discursos, para além do especular e da dimensão escópica, considerando que, um corpo, isso se goza?”. Elas insistem como direção para o trabalho por vir.
Seguiremos com a investigação sobre as concepções de corpo falante no último ensino de Jacques Lacan e suas incidências para as artes desde a década de 1970 à atualidade, a partir de textos psicanalíticos de Lacan, Miller, Brousse, Santiago, mas também de outros pesquisadores da arte e da estética. Para acompanhar as leituras teóricas, selecionamos algumas fotografias e espetáculos teatrais que elaboram, a seus modos singulares, questões próximas ao tema proposto.
Consideramos que um dos efeitos do giro performático nas artes, nos anos 1970, foi a destituição da prevalência do olhar (sem excluí-lo) por uma concepção das artes do corpo em termos de “acontecimento”; envolvendo a oralidade, a analidade, a voz e o nada; e, por vezes, explorando disjunções entre imagem, discurso e gozo. Com isso, abrem-se outras possibilidades de aproximação entre a experiência estética e a da psicanálise.
Uma delas é a questão da sublimação, tema que se entrelaça à expressão performática pela via do escabelo – esta sublimação que Miller afirma acontecer no âmbito do “eu não penso” e que inclui o gozo. Quando as artes do corpo produziriam um objeto elevado sobre o escabelo à dignidade da coisa?
Ainda com Miller, em “O osso de uma análise”, indagamos: “Joyce fez do próprio sintoma como fora do sentido, ininteligível, o escabelo de sua arte. Ele criou uma literatura cujo gozo é tão opaco quanto o do sintoma, nem por isso deixando de ser um objeto de arte elevado sobre o escabelo à dignidade da Coisa. Podemos nos perguntar se a música, a pintura, as Belas-Artes [e, acrescentamos, as artes performáticas] tiveram seu Joyce”?
Em outro texto, “A Salvação pelos Dejetos”, Miller propõe que o procedimento da arte é o de “estetizar o dejeto, de idealizá-lo, ou como dizemos em psicanálise, de sublimá-lo”, mas se afasta da posição de Lacan no “Seminário 7”, uma vez que já não se trata de “elevar o objeto à dignidade de Coisa”, enquanto “uma versão sublimada do gozo”, pois “o gozo como tal […] não tem a dignidade com que se recobrir”. Então, propõe que, quando o gozo “não é rebaixado à indignidade do dejeto, ele é sublimado, ou seja, socializado. O que chamamos ‘sublimação’ efetua uma socialização do gozo […], integrado ao laço social, ao circuito das trocas. Ele é colocado a trabalho no discurso do Outro e para o seu gozo”.
Poderíamos dizer que a arte contemporânea, ao abdicar do ideal de belo das Belas Artes, apresenta modos de saber fazer com o estranho e com os restos? E que encontra formas de tratar os dejetos não pela elevação à Coisa, mas pela socialização, inclusive de sua indignidade?
Em um percurso que teve início recolhendo as formulações de Lacan sobre o olhar no “Seminário 11”, seguiremos em direção às reformulações de seu último ensino, sobre lalíngua, gozo e RSI, presentes em “A Terceira” e nas leituras de psicanalistas que se esforçam em se posicionar à altura de seu tempo. Fazemos então, novamente, o convite ao trabalho com textos de Psicanálise, crítica de arte contemporânea e produções artísticas.
Para tanto, iniciaremos com uma retomada do trabalho desenvolvido em 2025 a partir de seus restos, retornando ao Seminário 11 para, a partir daí, avançar com a discussão sobre as concepções de arte, e da leitura da arte, na contemporaneidade, aquém/além da interpretação e da bela forma, enquanto acontecimento, experiência, invenção.
As obras artísticas selecionadas para o trabalho deste ano se dividem entre as artes visuais e o teatro:
– Minha língua – Lenora de Barros
– Série Siluetas – Ana Mendieta
– Vaga Carne – Grace Passô
– O céu da língua – Gregório Duvivier
– Medéia, Antígona, Ofélia e Agnes – o trágico e o feminino
CRONOGRAMA
Horário: 2ª e 4ª Segundas-feiras do mês, das 18h30min às 20h
Modalidade on-line.
Inscrições: lucianaromagnolli@gmail.com
PROGRAMA
16/03. Apresentação da Proposta. Aproximações entre Psicanálise e Artes
30/03. Retomada e conclusão da leitura do Seminário 11, de Jacques Lacan.
13/04. Discussão do texto acompanhada de leitura de obras artísticas.
27/04. Leitura de “Semiologia da Consciência” in: Psicopatologia Lacaniana vol.1, de Antônio Teixeira e Heloisa Caldas.
11/05. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
25/05. Leitura de “O suporte corporal”, texto de Graciela Brodsky.
08/06. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
22/06. Leitura de “Corpos lacanianos”, de Marie-Hélène Brousse.
06/07. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
10/08. Leitura de “A salvação pelos dejetos”, de Jacques-Alain Miller
24/08. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
07/09. Feriado
21/09. Leitura de trecho de “O osso de uma análise”, de Jacques-Alain Miller.
12/10. Feriado
26/10. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
09/11. Leitura de trecho de “A Terceira”, de Jacques Lacan.
23/11. Discussão dos textos acompanhada de leitura de obras artísticas.
07/12. Leitura de “O novo imaginário é o corpo”, de Jésus Santiago.


