PROPOSTA DE TRABALHO
- Eixo de pesquisa: Para o ano de 2026 se propõe como tema – A pluralização dos Nomes-do-Pai e seus efeitos sobre a clínica das psicoses.
- Encontros: 1ᵃˢ e 3ᵃˢ segundas-feiras do mês, das 20h às 21h30.
- Modalidade dos encontros: Presencial em Curitiba.
- Local: EBP Seção Sul – Curitiba, Avenida Cândido de Abreu, 766, sala 808 – Centro Cívico.
- Coordenação: Bianca Camille Camargo.
- Equipe de coordenação: Andrea Tochetto, Camile Pazda Fagundes, Nancy Greca Carneiro e Rafael Dored.
- Inscrições: biancacamargopsi@gmail.com
ARGUMENTO
A recomendação de Lacan para que um psicanalista não recue diante das psicoses segue viva. Com ela, sustentamos uma aposta: as psicoses nos ensinam, são um eixo para a formação de um analista e elevam a uma radicalidade sua função, bem como a escuta e o uso da palavra em tratamento, a qual é tomada “ao pé da letra”. Foi justamente ao sustentar essa recomendação, sem recuar, que uma pergunta emergiu e exigiu trabalho: por que Lacan pluralizou o Nome-do-Pai? A partir desta interrogação, propomos este Núcleo de Pesquisa: um espaço para investigar as consequências da pluralização dos Nomes-do-Pai e seus efeitos sobre a clínica das psicoses.
Pretendemos, neste primeiro ano do Núcleo, abordar a questão do saber em interface com a contemporaneidade e as psicoses. Será estabelecido um cronograma de textos a serem trabalhados a cada encontro ao longo do ano, e, sempre que possível, vinhetas ou casos clínicos serão incluídos na discussão.
O intuito aqui não é esgotar os temas, mas abrir um panorama abrangente sobre a clínica na contemporaneidade para, a partir daí, aprofundar alguma questão mais específica.
Após 48 anos o que resiste e mantém atual essa posição de não recuar diante das psicoses?
Há tempos não se trata mais, apenas, das psicoses clássicas, com os fenômenos extraordinários das descrições dos manuais de psicopatologia. Há fenômenos mais sutis que trazem desafios na formulação de diagnósticos e na condução de casos. Um olhar atento e uma escuta aguçada se fazem necessários. Essas mudanças, que atravessam a clínica, não se isolam das transformações discursivas da contemporaneidade. Não há clínica fora de uma época, descolada dos discursos sociais. E aí podemos nos perguntar: o que caracteriza nossa época?
Com o declínio do Nome do Pai, com a revelação cada vez mais pronunciada de seu estatuto de ficção, a inconsistência do grande Outro aparece de forma mais pronunciada, consistência essa antes sustentada pelas “grandes narrativas” que serviam de referência às leituras do mundo (MANDIL, 2023, p. 3).
Talvez uma das grandes marcas da contemporaneidade seja a dissolução da verdade, e consequentemente a cristalização de qualquer verdade. Não há mais marcas claras de orientação, é uma escolha liberal.
O avanço do ensino de Lacan em direção à pluralização dos nomes-do-pai não foi apenas decorrente de uma mudança cultural ou de um declínio social da função paterna – apesar de sua formalização ter se dado nesse período – mas sim de uma necessidade lógica interna à própria teoria. Desde o seminário 10, com a introdução do objeto a, Lacan já percebe que o Nome-do-Pai não pode mais se sustentar como significante mestre que garante a ordem simbólica – o Outro não é consistente – e passa a exercer uma função de amarração, um operador de nomeação que vai enlaçar o real com o simbólico e o imaginário. Essa virada, que vai da metáfora paterna à topologia borromeana, desloca a questão da lei para a do nó: não se trata mais de um pai que interdita o gozo, mas de uma operação de nomear que dá consistência ao sujeito, mesmo na ausência de um Outro garantidor.
Nesta conjuntura, qual o espaço para que o sujeito elabore um saber sobre si? Como os discursos da ciência e capitalista influenciam a maneira como o sujeito se relaciona com o saber e o gozo? O psicótico segue confiante no seu saber e podendo sustentar suas invenções?
A teoria das psicoses clássicas, tal como Lacan elabora no Seminário 3, se constrói com Freud e Schreber, a partir da radicalidade da palavra e do delírio como uma alternativa para a metáfora paterna que não se inscreveu. Ali, Lacan formaliza a foraclusão do Nome-do-Pai como um funcionamento estrutural capaz de explicar tanto os fenômenos extraordinários — vozes, alucinações, construções delirantes — quanto o desencadeamento propriamente dito.
É a falta do Nome-do-Pai nesse lugar que, pelo furo que abre no significado, dá início à cascata de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário, até que seja alcançado o nível em que significante e significado se estabilizam na metáfora delirante (LACAN, 584).
Retomar essa construção teórica é indispensável para recolocar em cena a lógica estrutural que sustenta a psicose e para interrogar como essa lógica se apresenta hoje, quando os fenômenos exuberantes dão lugar a manifestações discretas, silenciosas, ou até ordinárias.
Em contraste com o modelo das psicoses clássicas, se impõe a necessidade de abordar as psicoses ordinárias. Se, no caso Schreber, a ruptura com o simbólico pode ser percebida explicitamente, pelas manifestações dos fenômenos elementares, na clínica atual nos deparamos frequentemente com sujeitos cuja estabilização se faz por soluções discretas, sutis. Como aponta Miller (2012), a formulação das psicoses ordinárias vem responder a um dado clínico: a constatação de que casos que se caracterizavam por sua excepcionalidade, ao se tomar as referências clássicas acerca da neurose e da psicose, e que até então eram raros, vêm se torando cada vez mais frequentes. Nas psicoses ordinárias, no lugar da metáfora delirante consistente, o que aparece é a invenção de modos mínimos, às vezes quase imperceptíveis, de enlaçamento ao Outro.
Temos aqui psicóticos mais modestos, que nos reservam surpresas, mas que podem, como veremos, se fundir num tipo de média: a psicose compensada, a psicose suplementada, a psicose não desencadeada (…) (MILLER, 2012, p. 242).
Em consonância, temos um contexto discursivo profundamente impregnado pela lógica neoliberal, no qual há a crescente dissolução de marcadores simbólicos que até então funcionavam como balizas para os sujeitos. Neste cenário, combinado à exigência de desempenho, flexibilidade e autogestão do gozo, cada um é convocado a inventar, sozinho, uma maneira de se manter no laço social.
Dado o breve panorama dos eixos de trabalho propostos, para pensar a proposta de um Núcleo de Pesquisa, é importante localizar o que este formato traz de específico. Com os temas lançados a priori e a definição prévia dos eixos, cada participante poderá entrar como um pesquisador, fazer sua pesquisa dentro de seu percurso de formação. Trata-se de um espaço para construir alguma elaboração de saber sustentado no tempo, onde possamos acompanhar as consequências clínicas e teóricas que surgirão como efeito desse trabalho.
Propomos o formato exclusivamente presencial, por considerarmos que este pode melhor fortalecer a implicação com a pesquisa e a sustentação da circulação da palavra durante os encontros; a pesquisa exige tempo e presença para que se construa um saber compartilhado, sustentado na troca e no trabalho coletivo. Espaços com essas características se tornaram raros no contexto pós-pandêmico.
Por fim, a proposta do Núcleo de pesquisa não é apresentar um saber pronto, ensinar. O objetivo está muito mais para pesquisar tanto na literatura quando na própria subjetividade, quais as escritas que nos convocam?


