Coordenação: Verônica Paola Montenegro e Daniella Zichtl Pichetti
Proposta de trabalho 2026
Transferência ao que?
Interpretar como?
Psicoses ordinárias: um litoral clínico.
Em 2025, a pesquisa realizada no Núcleo partiu da pergunta sobre o que haveria de novo na clínica das psicoses, tomando como via privilegiada o estudo das psicoses ordinárias. Com este termo, J.A. Miller propôs não uma categoria diagnóstica mas um sintagma que permitisse ler e conduzir tratamentos que não apresentam indícios de desencadeamento clássico como alucinações ou delírios, mas sinais discretos que se manifestam na linguagem, no corpo e no laço social (Miller, 2010). Como “aparato epistêmico suplementar” (Aromí & Esqué, 2018), as psicoses ordinárias abriram todo um campo de pesquisa que auxilia o diagnóstico diferencial pela escuta apurada, sob transferência, de índices sutis da foraclusão.
A clínica atual das psicoses depara-se com sujeitos que parecem se perder numa pluralização de significantes, em uma semântica esvaziada onde a palavra não faz furo no real do corpo. Predominam as práticas de gozo repetitivas em um circuito fechado, expondo o sujeito à deriva (Cosenza, 2024). Tais efeitos poderiam ser decorrentes de uma “semântica do nada”, expressão proposta por Éric Laurent e retomada como chave de leitura dos casos atuais por Helenice de Castro (2024), segundo a qual perante a ausência de o S1 que ordene a cadeia e faça borda ao gozo, o sujeito ficaria absorvido em uma hiância entre significante e significado, dissipando-se em um nada e ficando a mercê de uma contínua flutuação de semblantes.
A aposta da pesquisa deste ano, dando continuidade ao percurso que interroga o que há de novo, é investigar as consequências clínicas a respeito da transferência, da interpretação e da posição do analista nas psicoses ordinárias. Se esses sinais discretos só se escutam sob transferência e se, com o declínio do Nome-do-Pai e a pluralização dos modos de gozo, a transferência já não se organiza prioritariamente pela suposição de saber (Miller, 2005), de que transferência se trata hoje? A transferência é endereçada a quem ou ao que? Que lugar ocupa o analista quando já não se pode contar com o sujeito suposto saber como operador central da transferência, mesmo na clínica das neuroses?
Essa mudança na transferência não é sem consequências para a interpretação. Hoje somos convocados a pensar a interpretação como ato, como corte, como enodamento, como nomeação; ou seja, como aquilo que pode funcionar como um ponto de basta ao gozo que invade (Cosenza, 2024). As mutações na transferência e na interpretação nos levam também a interrogar a posição do analista. Se, nas psicoses clássicas, a posição de secretariado orientava a direção do tratamento, hoje, tanto nas psicoses ordinárias como na clínica contemporânea, somos convocados a atuar a partir de uma posição que nomeamos de viva mas, o que isso significa? Poderíamos considerar os conceitos da posição do analista como “ajuda-contra” ou “analista sinthoma”, entre outros, como orientações possíveis? O analista poderia converter-se em parceiro do psicótico ao posicionar-se como destinatário de lalíngua de transferência, como foi discutido na Convenção de Antibes? Quais são as diferenças entre estes modos de nomear a posição do analista?
Considerando que, nas palavras de Cosenza, “o sintoma contemporâneo fecha a divisão na neurose e a fragmentação estrutural na psicose”(p. 52), até que ponto a clínica das psicoses ordinárias não nos oferece um paradigma para pensar os sintomas atuais, para além da oposição clássica entre neurose e psicose? Seria possível situar um litoral clínico entre as psicoses ordinárias e a clínica contemporânea?
O núcleo de psicoses convoca a cada Um a se haver com seu próprio desejo de saber, e apostar em compartilhá-lo através da transferência de trabalho que vamos tecendo ao longo do percurso. Convidamos a quem se interessar na nossa proposta a trabalhar conosco na pesquisa deste ano!
Referências
AROMÍ, Anna; ESQUÉ, Xavier. As psicoses ordinárias e as outras sob transferência. Texto de orientação referente ao XI Congresso Mundial de Psicanálise “As psicoses ordinárias e as outras sob transferência”, 2018. Disponível em: https://congresoamp2018.com/pt-pt/textos/las-psicosis-ordinarias-las-otras-transferencia/ Acesso em: dez. 2024.
COSENZA, Domenico (2024). Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Local: Ed. Scriptum.
CASTRO, Helenice de. O que o ordinário nos ensina sobre o extraordinário. In: Revista Curinga, Seção Minas Gerais, n. 57, p. 40-46, jun. 2024.
MILLER, Jacques-Alain. La psicosis ordinaria. Buenos Aires: Paidós, 2005.
___. Efeito do retorno à psicose ordinária. In: Opção lacaniana online, 1(3), 1-30, 2010. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_3/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf Acesso em: dez.2024.
Encontros:
- Datas: 2ª e 4ª segunda-feira de cada mês
- Inicio: 30/03/2026
- Março: 30/03 (excepcionalmente)
- Abril: 13/04 e 27/04
- Maio: 11/05 e 25/05
- Junho: 08/06 e 22/06
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- Outubro: 12/10 e 26/10
- Novembro: 09/11 e 23/11
- Horário: 20h às 21h30.
- Modalidade: Presencial (moradores da Grande Florianópolis). On-line (moradores de outras regiões).
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